Autismo leve, rituais e rotinas.

No episódio mais recente do podcast Fractais, apresentado por Alexandre Valverde, Dani Dutra, Hid Miguel e Felipe Wasserman, a discussão girou em torno de um tema central na vida de muitas pessoas neurodivergentes: a importância das rotinas e rituais. Este artigo visa explorar as nuances desse tópico, baseando-se na conversa rica e informativa que os apresentadores compartilharam.

A Importância das Rotinas

A necessidade de estabelecer rotinas é uma característica comum entre indivíduos neurodivergentes, especialmente aqueles no espectro do autismo e com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Alexandre Valverde compartilhou uma história pessoal sobre como ele costumava seguir um caminho específico da estação de metrô até a faculdade, pisando nos mesmos lugares da calçada todos os dias. Esse comportamento, aparentemente trivial, ilustra como rotinas proporcionam um senso de previsibilidade e segurança.

Dani Dutra acrescentou que, embora ela aprecie a estabilidade das rotinas, também pode se sentir frustrada pela repetição constante das mesmas atividades diárias. Esse dilema reflete a dualidade que muitos enfrentam: a necessidade de estrutura versus o desejo de novidade e espontaneidade.

Rotina e TDAH

Hid Miguel destacou a complexidade adicional para aqueles que têm tanto autismo quanto TDAH. Pessoas com TDAH muitas vezes lutam para manter rotinas devido à sua natureza impulsiva e distraída. Essa luta pode causar uma dupla angústia, pois a necessidade de rotina do autismo conflita com a dificuldade de mantê-la do TDAH. Hid compartilhou que, apesar de amar rotinas, frequentemente se desvia delas por causa de sua intensidade e espontaneidade momentânea.

Sistematicidade e Ritualização

Felipe Wasserman introduziu a ideia de sistematização, sugerindo que, além de rotinas, indivíduos neurodivergentes muitas vezes estabelecem sistemas complexos para dar sentido ao seu mundo. Esses sistemas não são apenas sobre repetição, mas sobre criar significado e conexão entre diferentes aspectos da vida.

A discussão evoluiu para a ideia de ritualização, onde comportamentos e atividades diárias são elevados a rituais com significados profundos. Alexandre exemplificou isso ao falar sobre sua coreografia pessoal no banho, onde ele segue uma sequência específica de gestos. Essa ritualização pode ser vista como uma forma de criar ordem e controle em um mundo que muitas vezes parece caótico.

Impacto da Pandemia

A pandemia de COVID-19 trouxe à tona muitas dessas questões de rotina e ritualização. Com as mudanças abruptas e a incerteza, muitos indivíduos neurodivergentes tiveram que reavaliar e adaptar suas rotinas. Alexandre mencionou como ele começou a dançar todas as noites durante a pandemia como uma forma de aliviar o estresse e manter uma sensação de normalidade.

Felipe comentou sobre como o trabalho remoto exacerbou a sensação de monotonia, transformando os dias em uma sequência de reuniões virtuais sem as interações sociais que ocorrem naturalmente em um ambiente de trabalho físico.

Viagens e Adaptações

Hid Miguel trouxe uma perspectiva interessante sobre viagens para pessoas autistas, desmistificando a ideia de que viagens sempre quebram rotinas e causam desconforto. Ele argumentou que, ao permanecer em um lugar por um período prolongado, é possível criar novas rotinas e se sentir confortável em um ambiente desconhecido. Essa abordagem permite que indivíduos neurodivergentes explorem novos lugares sem perder a sensação de segurança proporcionada por suas rotinas.

Conclusão

Rotinas e rituais desempenham um papel vital na vida de pessoas neurodivergentes, proporcionando estrutura, previsibilidade e um senso de controle. No entanto, é essencial reconhecer a complexidade e a individualidade dessas necessidades. Enquanto algumas pessoas encontram conforto na repetição, outras podem sentir a necessidade de variar suas atividades para evitar a monotonia.

O episódio do podcast Fractais oferece uma visão valiosa sobre como indivíduos neurodivergentes navegam entre a necessidade de rotina e a busca por flexibilidade. Ao entender essas dinâmicas, podemos criar ambientes mais inclusivos e compreensivos que atendam às diversas necessidades de todos.

Para ouvir o episódio completo e explorar mais sobre rotinas, rituais e neurodiversidade, acesse o podcast Fractais. Cada episódio é uma jornada de descoberta e entendimento, promovendo uma maior aceitação e celebração da neurodiversidade.

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