No episódio 57 do Podcast Fractais, Ale, Dani, Felipe e Id discutem um tema que, à primeira vista, parece trivial, mas que se revela uma janela para compreender as complexidades do comportamento humano: a dificuldade de realizar tarefas simples do cotidiano, como lavar louça. Para muitas pessoas neurodivergentes, especialmente aquelas no espectro autista, tarefas cotidianas podem se tornar desafios significativos devido à disfunção pragmática — uma dificuldade em organizar e executar ações de forma que seja compreensível e eficaz para os outros. Neste artigo, vamos explorar por que lavar louça pode ser uma tarefa tão desagradável e como a rotina e a estruturação podem tanto ajudar quanto atrapalhar na execução de tarefas diárias.
A Disfunção Pragmática e as Tarefas Cotidianas
Disfunção pragmática refere-se a uma dificuldade na realização de tarefas diárias que são, em teoria, simples. Como Dani ilustra no podcast, até mesmo organizar suas bijuterias pode parecer uma tarefa monumental. A mesa do seu quarto, que deveria ser um espaço de estudo, está sempre ocupada por uma pilha caótica de caixas de bijuterias. “Eu olho para aquilo e penso: isso está horrível, este quarto não pode ser assim”, confessa Dani. Apesar dessa percepção, a ideia de encontrar uma solução organizada para o problema parece intransponível. Isso é a essência da disfunção pragmática: saber que algo precisa ser feito, mas encontrar uma barreira quase física para executar a tarefa.
Essa barreira pode ser especialmente presente em tarefas domésticas, como lavar louça. Ale, por exemplo, menciona que muitas vezes se pega olhando para uma pilha de louça suja e pensando “preciso lavar a louça”, mas seu corpo não se move para iniciar a tarefa. Essa paralisia não é resultado de preguiça ou falta de responsabilidade, mas sim de uma combinação de fatores neurológicos e psicológicos que dificultam o início da tarefa.
O Peso da Rotina e da Rigidez Cognitiva
Para entender melhor por que tarefas simples como lavar louça podem ser tão desafiadoras, é importante explorar o papel da rotina e da rigidez cognitiva. No podcast, Felipe menciona como ele sempre foi reconhecido como bagunceiro, mas não necessariamente no sentido caótico. Ele se sente confortável na sua própria “bagunça organizada”. “Se você colocar a minha área muito organizada, eu acho mais estranho do que um pouco bagunçado”, explica Felipe. Para muitas pessoas neurodivergentes, a desorganização aparente é, na verdade, um tipo de organização que faz sentido para elas.
Isso está ligado à rigidez cognitiva, uma característica comum entre pessoas no espectro autista. Rigidez cognitiva se refere à dificuldade de mudar de pensamento ou adaptar-se a novas rotinas ou formas de fazer as coisas. No contexto de lavar louça, isso pode significar que uma vez que uma pessoa se acostuma a ver a louça suja empilhada de uma certa maneira, ela pode resistir a mudar isso, mesmo que a mudança (lavar a louça) seja claramente benéfica.
Felipe também menciona como ele gosta de mudar as coisas apenas quando algo novo acontece, como comprar uma roupa nova ou receber visitas. Isso indica que a mudança e a organização são frequentemente desencadeadas por estímulos externos ou novas condições, em vez de serem uma prática regular ou espontânea.
A Relação Complicada com Tarefas Repetitivas
Tarefas repetitivas, como lavar louça, muitas vezes envolvem pouco estímulo mental ou emocional, o que pode torná-las particularmente desafiadoras para pessoas neurodivergentes. Ale explica que, para ele, preencher um formulário ou uma planilha de Excel é um “desgosto profundo”. Mesmo sabendo que a tarefa pode ser rápida, a percepção é de que ela vai consumir muito mais tempo e energia do que realmente consome.
Essa aversão às tarefas repetitivas e sem estímulo pode estar ligada a como o cérebro neurodivergente processa a motivação e a recompensa. Dani observa que, para muitos neurodivergentes, é difícil se motivar para começar uma tarefa. “Se você quer começar algo e espera se motivar para ela, geralmente pessoas neurodivergentes vão ter muita dificuldade”, comenta Dani. Essa falta de motivação inicial pode resultar em uma tendência a procrastinar, esperando que a tarefa se torne mais atraente ou que as circunstâncias mudem.
Estratégias para Superar a Disfunção Pragmática
A partir das discussões no podcast, fica claro que uma das estratégias para superar a disfunção pragmática é criar uma estrutura de rotina que minimize a necessidade de decisão e maximize a eficiência. Felipe compartilha como ele organiza sua manhã de maneira extremamente precisa, quase como uma sequência de passos coreografados, para garantir que ele consiga realizar todas as suas atividades antes de sair para o trabalho. Essa rotina rígida ajuda a eliminar o “tempo de pensamento”, que muitas vezes leva à procrastinação.
No entanto, essa abordagem pode ter seus próprios desafios. Para algumas pessoas, a rigidez da rotina pode se tornar um problema em si, especialmente se a rotina for interrompida ou se houver uma mudança necessária. Dani e Ale discutem como, mesmo quando há uma necessidade clara de mudar — como quando uma planta não está prosperando em seu local atual — a ideia de mudar a configuração estabelecida pode causar desconforto.
O Papel da Motivação e do Hiperfoco
Para muitas pessoas neurodivergentes, a motivação para realizar uma tarefa vem não da necessidade da tarefa em si, mas de um interesse ou hiperfoco. Ale menciona um exemplo de como, para ele, se interessar por uma tarefa antes de se motivar para ela é crucial. Isso significa que, ao enfrentar uma tarefa desagradável, uma estratégia eficaz pode ser encontrar uma maneira de se interessar pela tarefa ou pelo resultado final.
Essa abordagem pode incluir a combinação de tarefas desagradáveis com atividades mais agradáveis, como ouvir música enquanto se lava a louça ou fazer uma competição pessoal para ver quanto tempo a tarefa realmente leva. “Eu coloco uma música eletrônica alta para dar energia, porque isso já começa a me estimular”, compartilha Ale. Ao associar a tarefa com uma atividade estimulante, a pessoa pode superar a barreira inicial de iniciar a tarefa.
A Importância da Aceitação e da Autocompaixão
Outra abordagem discutida no podcast é a aceitação e a autocompaixão. Dani menciona como ela às vezes sente culpa por não conseguir realizar tarefas que parecem simples para outras pessoas, mas que são complicadas para ela devido à disfunção pragmática. Essa autocrítica pode se tornar uma forma de autotortura, onde a pessoa se pune mentalmente por não conseguir realizar a tarefa.
Uma estratégia mais saudável pode ser praticar a autocompaixão e reconhecer que essas dificuldades são parte da neurodivergência. Em vez de se culpar por não ser capaz de realizar a tarefa da maneira “esperada”, pode ser útil reconhecer essas limitações e buscar soluções criativas que funcionem para o indivíduo.
Conclusão: Lavar Louça e Outras Batalhas Cotidianas
A discussão sobre por que odiamos lavar a louça pode parecer superficial, mas, como revela o episódio do Podcast Fractais, ela é uma porta de entrada para questões mais profundas sobre como navegamos pelas expectativas do dia a dia enquanto lidamos com as complexidades da neurodivergência. Para muitas pessoas neurodivergentes, tarefas simples podem se transformar em batalhas significativas devido a uma combinação de disfunção pragmática, rigidez cognitiva e uma relação complexa com a motivação e a recompensa.
Ao entender essas dinâmicas, podemos começar a desenvolver estratégias mais eficazes para lidar com essas tarefas e, talvez, encontrar um pouco mais de paz no caos da vida cotidiana. Seja criando rotinas estruturadas, encontrando maneiras de se interessar pelas tarefas ou praticando autocompaixão, há caminhos para superar os desafios da disfunção pragmática e tornar o dia a dia um pouco mais gerenciável. Afinal, o objetivo não é apenas lavar a louça, mas aprender a viver com mais harmonia em um mundo que nem sempre foi feito para acomodar nossas diferenças.