A infância e o brincar na neurodivergencia.

O episódio do podcast Fractais, apresentado por Hid Miguel, Alexandre Valverde, Dani Dutra e Felipe Wasserman, oferece uma perspectiva profunda sobre a importância da brincadeira e como a infância molda a experiência de pessoas neurodivergentes. Ao longo da conversa, os apresentadores relembram suas infâncias, refletem sobre o papel da brincadeira em suas vidas e traçam paralelos com o diagnóstico de neurodivergência, especialmente dentro do espectro autista.

A Importância da Brincadeira na neurodivergencia.

O brincar, como discutido no episódio, é uma atividade crucial durante a infância. Não se trata apenas de diversão, mas de um modo de experimentar o mundo, desenvolver habilidades sociais, cognitivas e motoras. Através da brincadeira, a criança explora sua criatividade, interage com o meio, aprende a lidar com regras e, sobretudo, descobre mais sobre si mesma. Para muitas crianças neurodivergentes, como as mencionadas pelos apresentadores, o brincar também é uma maneira de processar informações sensoriais e de socialização.

Durante o podcast, Hid comenta sobre sua experiência de nunca ter se sentido plenamente parte do grupo em suas brincadeiras. Ele destaca a dificuldade de se encaixar nas expectativas sociais da infância, algo comum entre crianças neurodivergentes. Embora estivesse presente em jogos e atividades, sentia que sua maneira de interagir era vista como diferente, o que, muitas vezes, o colocava em uma posição de “estranho”. Esse sentimento de não pertencimento é algo recorrente para muitas crianças dentro do espectro do autismo, que frequentemente experimentam a socialização de maneira distinta, precisando de mais tempo ou diferentes formas de interação para se sentir incluídas.

Brincadeira e Neurodivergência

Brincar pode ser uma experiência complexa para pessoas neurodivergentes. Enquanto algumas podem ter uma relação mais “funcional” com o ato de brincar, outras, como Dani e Alexandre mencionam, podem usar a brincadeira como uma forma de imitação ou experimentação do mundo adulto. Dani compartilha como, na infância, imitava sua mãe ao brincar de ser treinadora de ginástica olímpica, revelando como as crianças frequentemente usam a brincadeira para assimilar e processar os papéis sociais que observam ao seu redor.

Felipe, por sua vez, relembra suas brincadeiras com brinquedos colecionáveis, como o castelo do He-Man, e enfatiza como essa conexão nostálgica com objetos da infância ainda influencia sua vida adulta. Ele menciona que, apesar de ser um colecionador, seus brinquedos não estão “intocáveis” em acrílico; ele gosta de ver outros interagindo com eles. Isso destaca um ponto interessante sobre a relação de pessoas neurodivergentes com objetos e brinquedos: muitos desenvolvem um apego emocional e sensorial a determinados itens, o que pode ser uma extensão de sua forma de interação com o mundo.

Nostalgia e Memórias da Infância

Um ponto recorrente no episódio é a nostalgia. Os apresentadores frequentemente lembram suas infâncias com um filtro de positividade, ressaltando os bons momentos e as brincadeiras que os marcaram. Felipe, por exemplo, fala sobre como seleciona suas memórias, preferindo lembrar dos momentos felizes e “esquecendo” os negativos. Essa visão nostálgica, porém, também é um mecanismo de defesa comum, especialmente para pessoas que, como ele, experimentaram um certo desconforto em seus anos formativos.

Alexandre compartilha um ponto de vista complementar, refletindo sobre como, desde cedo, sempre esteve “fora” das brincadeiras de grupo. Ele descreve sua infância como um tempo de intensidade emocional, em que sua profundidade de sentimentos não era facilmente compreendida pelos colegas. Muitas vezes, ele era visto como “maduro demais” para a sua idade, o que o distanciava das crianças, mas não o tornava plenamente parte do mundo adulto. Esse tipo de isolamento emocional é um aspecto importante da neurodivergência, que pode levar ao desenvolvimento de uma identidade única, mas também solitária.

Brincadeira e Trabalho: A Linha Tênue

Um dos momentos mais profundos da conversa ocorre quando os apresentadores refletem sobre a fusão entre brincar e trabalhar. Hid menciona como, para ele, a distinção entre as duas atividades sempre foi nebulosa. Ele não consegue separar o prazer do brincar das obrigações do trabalho. O conceito ocidental de que “é preciso sofrer para depois se divertir” é algo que ele questiona profundamente, especialmente quando percebe que sua infância já refletia esse envolvimento emocional profundo com qualquer atividade que realizava, fosse uma brincadeira ou uma tarefa mais séria.

Alexandre adiciona a essa reflexão ao afirmar que, para ele, brincar sempre foi uma forma de experimentar e aprender. Ele lembra de como, desde pequeno, gostava de dar aulas para seus irmãos, mostrando como a brincadeira era uma forma de ensino e aprendizado mútuo. Essa visão da brincadeira como algo ligado ao desenvolvimento de habilidades e interesses futuros é algo recorrente em crianças neurodivergentes, que muitas vezes veem nas brincadeiras uma maneira de experimentar o mundo real de forma segura.

As Fases da Infância e a Influência dos Adultos

Outro ponto interessante levantado por Felipe é a ideia de que as crianças passam por fases de obsessão por personagens ou temas. Ele observa como suas filhas alternam entre fases de “Frozen” ou “Galinha Pintadinha”, criando todo um universo em torno dessas figuras. Isso reflete uma característica comum de crianças dentro do espectro autista, que podem desenvolver hiperfocos em temas ou interesses específicos, dedicando-se intensamente a eles por um período prolongado.

Dani, por outro lado, fala sobre sua infância como um tempo de forte influência dos adultos ao seu redor. Ela descreve como a profissão de sua mãe, professora de educação física, moldou suas brincadeiras, levando-a a querer imitar os movimentos e o estilo de vida da mãe em suas atividades lúdicas. Isso ressalta como, para muitas crianças neurodivergentes, as figuras adultas podem servir como modelos de comportamento, e a brincadeira pode ser uma forma de assimilar essas influências.

Conclusão

O episódio de Fractais revela como o brincar, que é muitas vezes visto como uma atividade trivial ou de mero entretenimento, é na verdade um componente fundamental para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo, especialmente para pessoas neurodivergentes. As reflexões dos apresentadores mostram como a infância e as brincadeiras podem ser experiências ricas, mas também complexas, quando vistas através da lente da neurodivergência.

Para os apresentadores, a infância foi uma fase de autodescoberta intensa, marcada por sentimentos de desconexão e isolamento, mas também por momentos de pura alegria e imersão. As brincadeiras, em suas diversas formas, ajudaram a moldar quem eles são hoje, servindo como uma ponte entre o mundo interior e exterior, entre a imaginação e a realidade.

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