https://open.spotify.com/embed/episode/5Qrr26I7uFTUGL6sPPSx90?utm_source=generator
Rituais e Autismo – Festas de fim de ano são marcadas por rituais coletivos, tradições e um senso de renovação que parece quase universal. Mas, para pessoas neurodivergentes, essas celebrações podem trazer reflexões bem diferentes das típicas. Afinal, o que esses rituais realmente significam para quem vive à margem do que é considerado “normal”?
No episódio mais recente do podcast Fractais, os hosts Felipe Wasserman, Hid Miguel, Dani Dutra e Alexandre Valverde mergulharam na complexidade dos rituais de fim de ano, debatendo como essas tradições dialogam (ou não) com a experiência de ser neurodivergente.
Rituais, Superstições e o Sagrado
Festas de fim de ano estão carregadas de simbolismos: pular sete ondas, comer romã, reunir a família, trocar presentes. Muitos desses gestos são vistos como superstição, mas também podem ser formas de buscar pertencimento ou alimentar uma fé, mesmo que não religiosa. Como comentou Alexandre, “o sagrado pode aparecer em qualquer lugar – no ritual do Natal ou no modo como o sol bate em um inseto no jardim”.
Essa ideia de sagrado pessoal é um tema recorrente para neurodivergentes. Muitas vezes, enquanto o coletivo se conecta aos rituais impostos pela cultura ou pela religião, pessoas neurodivergentes se encontram em gestos únicos, como Dani descreveu: “Plantar algo é meu ato de fé. É sobre acreditar que aquilo pode sobreviver e criar algo maior.”
Pertencimento e Isolamento
Um ponto levantado no episódio foi a constante sensação de estar “de fora” das convenções sociais. Enquanto muitas pessoas encontram conforto na coletividade, para pessoas autistas ou com TDAH, rituais podem parecer teatrais ou até incoerentes. Dani exemplificou: “Parece que o Natal é uma grande pausa nas tretas familiares, como se tudo fosse varrido para debaixo do tapete.”
Hid Miguel destacou como essa desconexão pode ser mais profunda: “Como a gente nunca está totalmente inserido, observar de fora vira o padrão. E aí, o coletivo parece estranho, artificial.”
Isso reflete uma vivência comum para quem é neurodivergente: a dificuldade de se encaixar em normas coletivas e a visão aguda das contradições nelas presentes.
Rituais e Rigidez Cognitiva
Para algumas pessoas no espectro autista, rituais pessoais têm uma importância muito maior do que os rituais coletivos. Hid exemplificou com seu apego ao número três: “Meu número três é tão sagrado pra mim quanto o Papai Noel é para algumas pessoas. Mas o meu é visto como estranho.”
Essa rigidez pode ser mal compreendida, mas, no fundo, é uma tentativa de encontrar sentido em um mundo que parece caótico e cheio de contradições.
Festas Coletivas e os Conflitos Familiares
Outro aspecto discutido foi o impacto das festas nos laços familiares. O Natal e o Ano Novo frequentemente forçam reuniões que podem ser emocionalmente desgastantes, especialmente em tempos de polarização política.
Felipe lembrou da pressão social para participar, mesmo quando isso não faz sentido: “Você quer passar o Natal no seu quarto? Isso é visto como um absurdo.” Já Dani trouxe uma visão conciliadora: “Às vezes, respeitar o momento coletivo e silenciar um incômodo pode ser uma forma de se preservar.”
Fé e o Cotidiano
Um dos pontos mais interessantes foi a discussão sobre fé. Para Alexandre, a fé vai além do religioso: é sobre acreditar em algo maior, seja em pessoas, no futuro ou na capacidade de transformação. É uma forma de enfrentamento e, ao mesmo tempo, de esperança.
No fim, o episódio concluiu com um convite ao equilíbrio. Dani resumiu bem: “Que todos possam encontrar o balanço entre respeitar e se colocar.”
E Você?
Para quem se identifica como neurodivergente, as festas podem ser um desafio – ou uma oportunidade. Talvez o segredo seja criar nossos próprios rituais e redescobrir o que faz sentido, mesmo que isso signifique passar o Natal sozinho ou redefinir o Ano Novo ao lado de pessoas escolhidas.
Feliz Ano Novo, ou só boas festas. No fim, que você encontre sentido no que realmente importa para você.
Ouça o episódio completo no Spotify e compartilhe suas experiências nos comentários!