Descubra como neurodiversidade e diversidade de gênero se conectam e desafiam padrões binários em um diálogo potente no Podcast Fractais.
No episódio 102 do Podcast Fractais, conduzido por Alexandre Valeverde, recebemos Joy e Aru para uma conversa intensa e necessária sobre a interseção entre neurodiversidade e diversidade de gênero. O ponto de partida foi um dado marcante: uma pesquisa sueca de 2021 apontou que cerca de 70% das pessoas autistas não se identificam como cis, hetero ou normativas.
Isso abriu espaço para um mergulho profundo sobre identidade, coragem, preconceito e sobre como viver fora dos padrões impostos.
Quebrando o binário: para além do “cis” e “trans”
A conversa revelou que, para muitas pessoas neurodivergentes, as regras sociais — incluindo as relacionadas a gênero e sexualidade — são mais facilmente questionadas. O autismo, por exemplo, pode trazer menos “adesão automática” às expectativas sociais, facilitando o rompimento com normas de gênero.
Aru destacou que não se trata apenas de “mudar de um lado para o outro” no espectro binário, mas de negar a lógica binária em si, criando novos espaços de existência. Joy complementou: a transição pode ser um “desmoronamento” — não apenas desconstruir o que se aprendeu, mas perceber que toda a estrutura de identidade está sendo revista.
Violência estrutural e interseccionalidade
Um ponto recorrente foi o peso das violências múltiplas: para pessoas trans e neurodivergentes, acessar saúde, trabalho e espaços seguros é um desafio diário.
- No sistema de saúde, há médicos que não respeitam nomes ou pronomes, que patologizam identidades e dificultam procedimentos.
- Para pessoas não brancas trans, a violência é agravada pelo racismo estrutural.
- No mercado de trabalho, barreiras documentais e preconceitos explícitos dificultam a contratação.
Aru ressaltou que não podemos comparar as vivências de uma pessoa trans branca e de uma pessoa trans não branca como se fossem “a mesma coragem” — as interseccionalidades moldam a intensidade e a natureza das violências.
Autismo e identidade de gênero: coincidência ou conexão?
Joy e Aru compartilharam que, na comunidade trans, há muitas pessoas neurodivergentes — e vice-versa. Essa sobreposição pode estar ligada ao fato de que gênero e sexualidade são performances sociais, e pessoas autistas tendem a ter menos disposição (ou habilidade) para mascarar e reproduzir essas performances.
Como disse Aru:
“Generidade é uma regra social, e a gente não quer reproduzir essa regra.”
O perigo do “diagnóstico demais”
Outro tema polêmico foi a tendência de setores da saúde de criar barreiras adicionais para pessoas autistas que desejam realizar procedimentos de transição. O argumento: que a “dismorfia corporal” associada ao autismo tornaria a decisão menos confiável.
O resultado? Mais controle sobre corpos já marginalizados, enquanto pessoas cis fazem modificações corporais (como próteses ou reposição hormonal) sem passar por filtros semelhantes.
Da teoria à prática: como apoiar de verdade
A conversa deixou claro que inclusão não é só discurso. É preciso:
- Contratar e remunerar pessoas trans, especialmente neurodivergentes.
- Criar espaços de saúde mental e física conduzidos por profissionais trans.
- Ampliar redes de apoio para além do trabalho: convívio social, eventos, afetos.
- Rever as próprias práticas, desde linguagem até estrutura de projetos.
E, acima de tudo, entender que conviver com uma pessoa trans implica questionar a própria generidade.
Para pensar depois de ouvir
O diálogo foi permeado por provocações que merecem eco:
- E se, depois dessa conversa, você perceber que não é cis?
- Quanto das suas ações realmente desafia a estrutura cisnormativa e quanto apenas a reproduz de forma mais “bonita”?
- Você está disposto(a) a incluir corpos dissidentes na sua vida de forma cotidiana e não só simbólica?
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- Instagram Aru: @arupontuelo
- Projeto conjunto: Afeto Visceral – sexualidade e corpo para pessoas dissidentes.