E, pra esse episódio, recebemos um convidado especial: Anderson Gomes, head de Recursos Humanos do Laboratório Catarinense. Ele veio contar sobre uma iniciativa que a gente acredita ser pioneira no Brasil: um grupo de apoio para colaboradores com filhos neurodivergentes e famílias atípicas dentro da empresa.
Mais de 60% dos cuidadores de pessoas neurodivergentes relatam que o apoio que recebem não é suficiente. E não é só isso: mães e filhos de pessoas neurodivergentes convivem com altos níveis de ansiedade e depressão, segundo diversas pesquisas. A qualidade de vida dessas famílias é diretamente impactada pela falta de suporte — e é impossível ignorar esse dado.
A gente precisa falar sobre acolhimento em famílias atípicas.
Oi, eu sou a Daniela Dutra, e tô aqui com o Alê, Felipe e IDE pra abrir essa conversa num lugar que é o nosso preferido: a escuta atenta, o papo honesto, e a busca por caminhos típicos feitos por pessoas atípicas.
A ideia que nasceu da escuta
Desde que entrou na empresa, Anderson percebeu que havia um valor forte ali: o acolhimento real, não só como discurso. Em 2023, criaram o programa “Cuidar mais de você”, com foco na saúde do corpo, da mente e do espírito. Isso mesmo: espírito também, com espaço inclusive para um capelão — alguém que oferece suporte emocional e espiritual (sem viés religioso obrigatório) para quem precisa conversar.
Com esse olhar amplo, eles começaram a perceber que pais, mães, avós e cuidadores estavam chegando no ambulatório sobrecarregados, buscando ajuda não só para si, mas também querendo saber como lidar com filhos autistas, com TDAH, e outras condições neurodivergentes.
A resposta foi simples e poderosa: criar um grupo de apoio dentro da empresa. Um grupo à tarde, outro à noite — pra atender inclusive quem trabalha no terceiro turno, porque o cuidado precisa ser acessível a todos.
O grupo que virou comunidade
O grupo nasceu da demanda dos próprios colaboradores e logo virou um espaço seguro de troca. Pais e mães que nunca tinham falado sobre sua realidade começaram a compartilhar desafios, angústias e também as potências dos filhos.
Tem pai que diz que pela primeira vez se sentiu ouvido por uma empresa. Tem gente que diz que queria que o filho ou a filha pudesse ter um atendimento assim. Tem família que, ao acolher o filho, começou a se perceber também com características neurodivergentes — o que é mais comum do que parece.
E o impacto não ficou só na conversa. Começaram a surgir ideias de adaptações no ambiente de trabalho: pensar no ruído, na luz, nos espaços silenciosos e nas pausas para autorregulação. Porque, como disse o Anderson, “a saúde vai muito além de tratar doença — é sobre estilo de vida e prevenção”.
Quebra de tabu e valorização da diferença
O mais bonito desse projeto é que ele não trata a neurodivergência como problema. Pelo contrário, valoriza as potências.
Hiperfoco, senso de justiça, engajamento, lealdade, criatividade — são só algumas das características que, quando reconhecidas, podem ser uma baita vantagem competitiva pras empresas. E mais: o projeto não busca rotular ou sair diagnosticando todo mundo. Ele acolhe quem se apresenta, e respeita o tempo de cada um.
Como o próprio Anderson disse:
“Ser ou não ser neurodivergente é só uma característica. E às vezes, é exatamente essa característica que vai fazer a pessoa se destacar.”
A empresa inteira se envolve?
Sim — e esse é um diferencial. Desde o porteiro até os cargos executivos, há um esforço pra cultivar uma cultura de respeito, humildade, alegria e honra. Nem todo mundo tem o mesmo nível de conhecimento sobre o tema, claro, mas todos são convidados a escutar, aprender e acolher.
E os resultados aparecem: retenção de talentos, ambiente mais humano, confiança, e um orgulho coletivo de fazer parte de algo maior.
O recado final: cuidar de quem cuida
O projeto do Laboratório Catarinense mostra que acolher famílias atípicas não é só possível — é urgente e transformador. Não exige grandes investimentos, mas sim ouvido, empatia e ação concreta.
E fica o convite: se você trabalha numa empresa, que tal sugerir algo parecido? Se você é líder, gestor, RH — ou mesmo um colega atento —, essa iniciativa pode começar com uma roda de conversa. Porque, no fim, o que todo mundo quer é isso: ser ouvido e respeitado.
A gente aqui no Fractais segue acreditando que caminhos típicos também podem ser feitos por pessoas atípicas — e que o mundo do trabalho tem muito a aprender com isso.
Queremos saber: como a sua empresa lida com a neurodivergência? Você se sente acolhido no seu ambiente de trabalho? Conta pra gente nos comentários ou nas redes do @podcastfractais.
Até a próxima!