No episódio mais recente do Fractais, recebemos a escritora Simone Campos — autora publicada pela Companhia das Letras — para uma conversa potente sobre autismo, altas habilidades e o que significa descobrir-se neurodivergente já adulta. Ao lado de sua editora Alice Santana, Simone nos leva por um percurso íntimo e revelador: o diagnóstico tardio, a forma como isso atravessa sua escrita e os embates com a religiosidade institucional.
Diagnóstico tardio & dupla excepcionalidade
Simone conta que recebeu o diagnóstico de autismo + altas habilidades em fase adulta — algo que já vinha suspeitando por sinais antigos, mas que só se cristalizou em determinado momento.
“Nunca tinha pesquisado uma coisa e bateu tão forte… achei que era isso então, né?”
Essa frase revela o impacto inédito de “me reconhecer”. Por anos, ela operou sem mapa claro, adaptando-se, justificando travas (como na mudança para os EUA) como “problemas de adaptação”. Só depois, com o diagnóstico, as peças começaram a se encaixar e o autoentendimento ganhou consistência.
Para o nosso público — neuroatípicos, autistas leves, pessoas com altas habilidades ou duplas excepcionalidades — essa narrativa toca fundo: quantos de nós já vivemos “no ralo” de sensações desconectadas, até achar uma lente que explique (ou ao menos contextualize) o modo como somos e sentimos?
Nesse sentido, o diagnóstico não é apenas um rótulo: é um instrumento de libertação e de reorganização interna. Simone afirma que foi “a melhor coisa” para sua vida, embora reconheça o baque inicial de se ver diferente e ter que lidar com a reação dos outros.
Escrita, personagem e identidade
Um dos trechos mais ricos da conversa: como o diagnóstico afetou a prática da escrita de Simone. Ela revela que, ao criar uma personagem autista (no livro anterior), acabou desembocando numa autoidentificação profunda — o que tornou o processo muito mais fluido.
“Basta seguir aqui o fluxo habitual dos pensamentos.”
Esse “fluxo” é uma pista para nós, leitores/neuroatípicos: há uma lógica própria, uma forma de processamento interna que, quando aceita, pode render autoria, criatividade, narrativa mais autêntica.
Depois do diagnóstico, Simone teve liberdade para incorporar elementos de sua experiência — sem necessariamente declarar o autismo —, o que gerou obras com personagem até então “no armário” (ou seja: não declarado) e depois obras com clareza maior. Isso toca duas frentes importantes:
- O desafio de escrever partindo de uma perspectiva de que “algo não estava encaixando”.
- A liberdade que se abre ao acolher essa diferença — não como defeito, mas como traço, como registro de vida.
Para o blog Fractais, que dialoga com neurodivergência, esse tema é ouro: a escrita como espelho da mente atípica, a personagem como avatar de autor/autista, e a edição (com a Alice) como espaço de refinamento dessa visão.
Religião, divergência e tensão cognitiva
Um dos momentos que mais nos chamou atenção: Simone relaciona a neurodivergência com sua religiosidade (e sua saída da igreja), falando de “rigidez de pensamento”, “paixão por regras para organizar o mundo” e da dissonância cognitiva que surgiu quando essas regras passaram a não fazer sentido.
“As regras são a forma de organizar o mundo. Aí chega uma igreja que diz: as regras são essas.”
Essa tensão entre o cérebro que busca clareza, ordem, padrão — e o mundo (ou a instituição) que impõe regras que não respondem aos filtros internos — é epítome da experiência atípica. No podcast, chamamos isso de “sacralidade neurodivergente”: uma espiritualidade que não se acomoda à veneração automática, que questiona, que se ajusta segundo lógica interna, não só dogma.
Para o leitor/leitoratípico: essa história mostra que a neurodivergência pode se manifestar como uma exigência mais alta de coerência — o que, por vezes, gera fricção com instituições rígidas. E isso é absolutamente legítimo e parte da jornada.
Edição, colaboração e ambiente de criação
Alice (a editora) comenta como, mesmo sem diagnóstico declarado, já percebiera “traços” de neurodivergência em autores, e como o processo editorial de Simone foi um exemplo de boa colaboração: abertura para sugestões, diálogo, sem ego exacerbado.
“É muito fácil encontrar autores com ego para caramba… eu falei: não vou ser assim.”
Esse trecho ressalta algo importante para quem trabalha ou convive com pessoas neurodivergentes: a clareza, a organização, a versão, a repetição podem não ser “defeitos”, mas ferramentas de operação. E em ambientes criativos/editoriais, isso pode virar diferencial de produtividade e originalidade.
Para o blog, vale destacar: as “estruturas” que muitos neurótipicos consideram rígidas (arquivos versionados, controle, prazos, módulos) podem ser aliadas para o cérebro atípico — e quando bem acolhidas, viram potência.
Mensagem final e implicações para nós
Para fechar, algumas reflexões que a conversa nos trouxe — e que podemos compartilhar com nossa audiência atípica:
- Diagnóstico tardio não significa “menos autista” ou “menos válido”. Significa que o mapa entrou tarde. E isso, embora custoso, pode render afirmação real e libertadora.
- Narrativa literária é terreno fértil para atípicos: transformar processamento interno, excessos, rigidez, hiperfoco, em arte. A escrita como auto‑cura e descoberta.
- Neurodivergência + fé/espiritualidade é combinação riquíssima e pouco explorada: o cérebro que exige lógica, mas também anseia por transcendência, mistério, significado — e que se vê em conflito com instituições que não acomodam diferenças.
- Colaboração e adaptação: ambientes de trabalho ou criação que valorizem clareza, adaptação, respeito pela diferença e diálogo são cruciais para quem é neurodivergente.
- A norma é a diversidade: como Simone diz, “nenhum cérebro é igual ao outro”. E isso é motivo de celebração. No Fractais, queremos reforçar que estar “fora do padrão” não é defeito — é modo diferente de operar.