Neste episódio do Podcast Fractais, recebemos Daiane Simão, geneticista especializada em neurodivergência genética e saúde de precisão. E o papo foi profundo, revelador, e — como tudo que a gente ama — cheio de boas risadas e reflexões reais.
Você já ouviu alguém dizer: “Mas você é autista? Nem parece!” ou “Como assim superdotado? Nunca notei nada diferente!”? Pois é. A maioria das pessoas ainda vê a Neurodivergência genética com um olhar bem limitado — como se todo mundo que vive isso fosse igual, seguisse um mesmo roteiro ou pudesse ser explicado por uma simples equação de DNA. Spoiler: não somos uma ervilha!
A tal ervilha que não somos
Você lembra daquelas aulas de biologia do colégio, com os famosos cruzamentos de ervilhas do Mendel? Azão com azinho, amarelo com verde… Tudo muito bonitinho e previsível. Acontece que seres humanos não são ervilhas. Nem as nossas mentes, nem os nossos comportamentos, tampouco a nossa forma de existir no mundo cabem nesse modelo simples.
Como explica Daiane, todo mundo tem genes em comum, mas a forma como esses genes se expressam varia de pessoa para pessoa. É como se todos tivéssemos ingredientes parecidos, mas receitas muito diferentes. Um gene que influencia dopamina, por exemplo, está em todos nós — mas o quanto ele é ativado, combinado ou silenciado muda completamente a nossa experiência.
Neurodivergência é diversidade biológica
A neurodivergência genética traz exatamente esse ponto: não há um “tipo” de autista, superdotado ou TDAH, assim como não há uma única forma de ser “típico”. Cada cérebro é um fractal — múltiplas possibilidades dentro de um mesmo padrão.
A partir de mapeamentos genéticos, Daiane ajuda pessoas a entenderem de onde vêm suas sensibilidades, potenciais e até dificuldades. O foco não é colocar um carimbo, mas sim oferecer autoconhecimento e suporte personalizado, com base em dados biológicos, históricos e ambientais.
Copos, bolinhas e o transbordar
Uma analogia ótima trazida no episódio é a “teoria dos copos”. Imagina que cada pessoa nasce com um copo, e que esse copo vai enchendo com genes + ambiente + experiências. Quando o copo transborda, aparecem características observáveis, como autismo, ansiedade, superdotação, etc.
Você pode ter muitas “bolinhas pequenas” (pequenos genes de risco), ou uma “bolona” só (um gene de grande impacto). E esse transbordamento depende do quanto o ambiente empurra ou acolhe essa predisposição. Por isso é que o diagnóstico não é uma sentença nem um destino fixo — é um convite a entender o que transbordou, como e por quê.
Epigenética: o jogo de luz que liga e desliga nossos genes
Outro conceito essencial que surge no episódio é o da epigenética. Mesmo que você tenha determinado gene, isso não significa que ele estará “ligado”. A forma como vivemos — o que comemos, o estresse que sentimos, as experiências que acumulamos — modula a ativação desses genes.
É como ter um livro com todos os capítulos escritos, mas com um marcador que decide qual capítulo será lido ou não, dependendo do ambiente.
A genética no trabalho (e no cansaço)
A conversa também entra num território ainda pouco explorado: como adultos neurodivergentes são afetados nos ambientes de trabalho. A falta de acolhimento sensorial (luz, ruído, temperatura, etc.) pode gerar um esgotamento brutal, invisível para os outros, mas real para quem vive.
E o que parece “frescura” para alguns (como usar óculos escuros no escritório ou precisar de silêncio para se concentrar) pode ser biologicamente comprovado. A partir dos dados genéticos, é possível mostrar por que uma pessoa sente tanto um cheiro, ou precisa de pausas mais frequentes, ou sofre em ambientes com muita gente.
Quando as empresas entendem isso, elas podem adaptar — não para dar “vantagens”, mas para garantir igualdade de condições.
E o diagnóstico? Ainda é um desafio
A parte mais tensa é que muita da pesquisa genética — especialmente sobre neurodivergência — ainda se baseia em dados de populações brancas e do norte global. Isso significa que o que se considera “normal” ou “alto risco” está enviesado.
Pessoas negras, indígenas ou periféricas são menos diagnosticadas, menos estudadas e menos incluídas. Não porque não sejam neurodivergentes, mas porque o olhar da ciência ainda não as vê como deveria. Como diz Daiane: às vezes, o que o teste não mostra é só a nossa ignorância enquanto sociedade.
Superdotação não é só intelectual
Outro ponto alto foi a discussão sobre superdotação física, sensorial, artística. O Ronaldinho Gaúcho e o Cristiano Ronaldo foram usados como exemplo. Um gênio natural do futebol, outro fruto de treino pesado — ambos superdotados em sua forma, ambos com corpos que processam o mundo de forma diferente.
E é aí que entra a complexidade da genética: não é sobre QI, nem sobre notas altas, nem sobre parecer um “nerd”. É sobre como o seu corpo e o seu cérebro se conectam com o mundo de forma fora do padrão. E isso pode ser lindo, confuso, difícil e potente — tudo ao mesmo tempo.
Conclusão: neurodivergência genética é sobre conhecer-se para existir melhor
Ao longo desse episódio, entendemos que neurodivergência genética é uma chave poderosa para abrir as portas do autoconhecimento. Não para se limitar a um rótulo, mas para entender as combinações únicas que te fazem ser quem você é.
Como dizemos no Fractais: caminhos típicos feitos por pessoas atípicas. E agora com mais ciência no papo.
Se você quiser saber mais sobre mapeamento genético, neurodivergência, superdotação e epigenética, siga a @dra.daianesimao nas redes. E fique de olho no lançamento do livro Altas habilidades e superdotação: a genética das potências humanas, com prefácio do nosso Alê Valeverde.
Porque ser diferente não é o problema — o problema é querer que todo mundo seja igual.