O episódio recente do Roda Viva com o neuropediatra Dr. Salomão Schwartzman provocou uma intensa discussão na comunidade autista brasileira. A repercussão não aconteceu apenas por divergências técnicas sobre diagnóstico, mas porque trouxe à tona questões mais profundas: quem tem autoridade para falar sobre autismo? Como a ciência evolui? E qual é o papel da experiência vivida das pessoas neurodivergentes nesse debate?
No Podcast Fractais, o tema foi discutido por Daniela Dutra, Alexandre Valverde, Felipe Wasserman e Hid Miguel a partir de uma perspectiva que mistura experiência pessoal, reflexão científica e crítica social. O resultado foi uma conversa rica sobre os desafios do diagnóstico tardio, o conceito de espectro e os caminhos para uma sociedade mais inclusiva.
O que mudou no entendimento do autismo?
Um dos pontos centrais da discussão foi a evolução dos critérios diagnósticos. Com a publicação do DSM-5 em 2013, diferentes categorias anteriormente separadas passaram a ser compreendidas dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Condições como a antiga Síndrome de Asperger deixaram de existir como diagnóstico independente e passaram a integrar uma visão contínua do espectro.
Essa mudança ampliou a capacidade de identificar pessoas que antes passavam despercebidas pelos sistemas de saúde e educação. O resultado foi um aumento significativo dos diagnósticos, especialmente entre adultos que cresceram sem acesso a esse conhecimento.
Mas ampliar o diagnóstico não significa “inventar” autistas. Significa reconhecer manifestações mais sutis de uma condição que sempre existiu.
O espectro incomoda porque desafia categorias rígidas
Durante a entrevista no Roda Viva, uma das críticas mais comentadas foi a rejeição à ideia de espectro. Para os participantes do Fractais, essa posição ignora uma realidade básica não apenas da psiquiatria, mas da própria biologia humana: praticamente tudo existe em graus, intensidades e combinações.
Quando falamos em espectro, não estamos dizendo que todas as pessoas autistas são iguais. Estamos dizendo justamente o contrário: que existe uma enorme diversidade de apresentações, necessidades e desafios dentro de uma mesma condição.
Essa perspectiva permite incluir tanto pessoas que necessitam de suporte intenso quanto aquelas que conseguem mascarar dificuldades durante anos, muitas vezes à custa de sofrimento psicológico significativo.
Diagnóstico tardio: menos privilégio, mais explicação
Uma narrativa recorrente nas críticas ao aumento dos diagnósticos é a ideia de que pessoas estariam buscando o rótulo de autismo para obter vantagens.
O debate do Fractais trouxe uma provocação importante: quais seriam exatamente esses privilégios? Em muitos casos, os benefícios mais utilizados são carteiras de identificação, atendimento preferencial ou adaptações mínimas para garantir acessibilidade.
Para quem recebe um diagnóstico tardio, a experiência costuma ser muito diferente da imagem de “vantagem”. O diagnóstico frequentemente chega depois de décadas de dificuldades sociais, crises de saúde mental, sensação de inadequação e tentativas frustradas de compreender a própria trajetória.
Mais do que um benefício, o diagnóstico costuma funcionar como uma explicação.
Inclusão não é colocar a pessoa na sala e esperar que ela se adapte
Outro ponto controverso foi a discussão sobre educação inclusiva.
Os participantes argumentaram que o problema não está na presença de crianças autistas em escolas regulares, mas na incapacidade das instituições de se transformarem para acolher diferentes formas de aprender, comunicar e participar.
Uma escola verdadeiramente inclusiva não espera que todos os alunos funcionem da mesma maneira. Ela reconhece que existem diferentes perfis cognitivos, sensoriais e emocionais, adaptando seus processos para atender essa diversidade.
A pergunta, portanto, deixa de ser “essa criança deveria estar aqui?” e passa a ser “o que precisamos mudar para que ela possa estar aqui?”.
Ciência e experiência não precisam ser adversárias
Talvez uma das reflexões mais importantes do episódio seja que a discussão não deve ser colocada como uma disputa entre ciência e experiência pessoal.
A ciência é fundamental. Os avanços em genética, neuroimagem e neurodesenvolvimento continuarão ampliando nosso entendimento sobre o autismo. Ao mesmo tempo, a experiência das pessoas autistas também produz conhecimento valioso sobre aquilo que os exames ainda não conseguem capturar.
Quando profissionais, pesquisadores, familiares e pessoas autistas conseguem dialogar, a compreensão da condição se torna mais rica e mais humana.
O fim da normalidade?
Uma frase que atravessou a conversa foi a ideia de que “cada pessoa é sua própria norma”. Em vez de buscar uma definição rígida do que seria normal, talvez o desafio contemporâneo seja reconhecer a diversidade de funcionamentos humanos e construir ambientes capazes de acolhê-la.
O crescimento dos diagnósticos não precisa ser visto como um problema. Ele pode ser entendido como um sinal de que estamos ficando melhores em reconhecer pessoas que antes eram invisíveis.
E talvez essa seja a grande questão levantada pelo debate: não estamos descobrindo mais autistas. Estamos finalmente aprendendo a enxergá-los.