Quando a pista de dança vira um lugar seguro

Quando a pista de dança vira um lugar seguro: autismo, música e a arte de construir espaços de pertencimento

Tem uma frase que aparece muito quando pessoas autistas falam sobre vida social:

“Eu achei que não gostava de festas.”

Só que às vezes a verdade é outra.

Talvez você não goste de luzes piscando sem parar. Talvez o volume esteja alto demais. Talvez o calor, a lotação ou a sensação de estar sendo observado sejam mais cansativos do que divertidos. Talvez você simplesmente nunca tenha encontrado um espaço em que pudesse existir do seu jeito.

Foi mais ou menos por aí que a DJ e produtora Carol Matos começou a perceber uma coisa curiosa. Sem saber que era autista, ela passou anos construindo festas exatamente da maneira que ela mesma gostaria de frequentar.

E só depois veio o diagnóstico.

A festa perfeita para ela

Carol toca há mais de dez anos e organiza eventos desde 2015. Três anos atrás, criou a Fluma, no Rio de Janeiro.

A ideia era simples: fazer uma festa em que ela mesma se sentisse confortável.

Nada de luzes excessivas. Nada de som estridente. Ambientes escuros, temperatura agradável, espaços de descanso e áreas onde as pessoas pudessem simplesmente respirar um pouco antes de voltar para a pista.

Sem perceber, ela estava fazendo algo que muitas pessoas neurodivergentes procuram a vida inteira: um ambiente onde não fosse preciso sobreviver ao excesso de estímulos.

Só mais tarde, depois de receber o próprio diagnóstico e ouvir de outra DJ autista que se sentia particularmente bem na Fluma, Carol percebeu que aquilo não era coincidência.

Ela tinha construído uma pista de dança acessível antes mesmo de saber por quê.

Talvez você não odeie festas

Uma das coisas mais interessantes da conversa foi a diferença entre “não gostar de festa” e “não gostar de determinadas experiências sensoriais”.

Porque existe uma ideia muito difundida de que pessoas autistas são antissociais, não gostam de música ou preferem ficar sozinhas.

Mas não é tão simples assim.

Muitas pessoas neurodivergentes amam música. Algumas encontram nela uma forma de autorregulação. Outras descrevem a sensação de estar numa pista como uma experiência quase meditativa, em que o corpo e a mente finalmente entram em sintonia.

A questão é que cada pessoa tem um limiar diferente.

Para alguns, uma rave pode ser um paraíso.

Para outros, cinco minutos ali já são suficientes para gerar uma sobrecarga sensorial.

E está tudo bem.

Não existe um jeito “correto” de viver o prazer, a socialização ou a diversão.

A liberdade de ser estranho

Carol trouxe uma reflexão interessante sobre a cultura da música eletrônica.

Historicamente, muitos desses espaços nasceram em comunidades dissidentes. Eram ambientes frequentados por pessoas LGBTQIA+, artistas, gente que já estava acostumada a viver nas bordas.

Talvez por isso exista algo muito potente nessas pistas: a permissão para ser estranho.

Dançar estranho.

Vestir-se estranho.

Ficar sozinho.

Interagir quando quiser.

Ir embora quando precisar.

Existe algo profundamente humano em encontrar lugares onde você não precisa representar um personagem.

E talvez seja por isso que tantas pessoas neurodivergentes se reconhecem nesses ambientes.

Acessibilidade não é só rampa

Quando falamos em acessibilidade, normalmente pensamos em rampas, elevadores ou recursos para pessoas com deficiência visual e auditiva.

Mas e a acessibilidade sensorial?

E se um ambiente fosse pensado levando em conta iluminação, temperatura, acústica e espaços de descompressão?

Não significa que todo lugar precise virar uma “festa para autistas”.

Aliás, essa talvez seja a parte mais interessante.

Não existe um modelo único.

Existe diversidade.

Algumas pessoas gostam de heavy metal. Outras de pagode. Algumas querem dançar no meio da multidão. Outras preferem ficar observando da lateral.

A questão não é padronizar.

É oferecer previsibilidade.

Saber como é o ambiente antes de chegar.

Ter a possibilidade de escolher.

Porque autonomia também é acessibilidade.

Um selo ou apenas mais informação?

Durante a conversa surgiu uma ideia curiosa: e se os eventos informassem melhor como são?

Não para criar uma certificação rígida ou uma espécie de “festa oficialmente neurodivergente”.

Mas para dizer coisas simples como:

No fundo, é menos sobre criar regras e mais sobre reduzir a ansiedade que vem do desconhecido.

Porque para muita gente, saber o que vai encontrar é metade do caminho.

Construindo caminhos típicos do nosso jeito

Existe uma imagem bonita que apareceu na conversa.

Talvez muitas pessoas neurodivergentes tenham sido, ao longo da história, guardiãs de certos rituais.

As pessoas que cuidavam do templo.

Que observavam os detalhes.

Que organizavam os espaços.

Que criavam ambientes seguros para que outras pessoas pudessem se reunir.

Talvez a pista de dança seja um pouco isso também.

Um ritual.

Uma experiência coletiva.

Um lugar onde cada um encontra sua maneira de pertencer.

E talvez a pergunta não seja:

“Por que eu não gosto de festas?”

Mas:

“Será que eu ainda não encontrei a minha?”

Porque, às vezes, o problema nunca foi você.

Era só a frequência errada.

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