Existe uma pergunta que parece simples.
“O que você quer?”
A maioria das pessoas faz essa pergunta como se a resposta estivesse pronta em algum lugar dentro da gente. Como se existisse uma gavetinha chamada “quereres”, bastasse abrir e pronto:
— Quero pizza.
— Quero viajar.
— Quero casar.
— Quero morar sozinho.
— Quero ficar junto.
Mas e quando o querer não é tão simples assim?
Foi mais ou menos nessa provocação que começou uma conversa recente no Fractais. E, como costuma acontecer por aqui, um verbo aparentemente inocente virou uma discussão sobre autismo, alexitimia, relações, frustração e o desafio de existir junto com outras pessoas.
O verbo mais estranho da língua portuguesa
Alexandre trouxe uma inquietação curiosa: ele tem dificuldade com o verbo “querer”.
Não é uma dificuldade de pedir comida no restaurante ou escolher um filme. É uma estranheza mais profunda.
Porque querer parece sempre apontar para alguma coisa que ainda não existe.
E aí surge uma questão desconfortável:
Como é que alguém pode afirmar uma coisa sobre o futuro se o próprio desejo pode mudar?
“Eu vou querer isso daqui a um ano?”
Quem garante?
Talvez por isso muita gente neurodivergente viva numa espécie de negociação permanente com os próprios desejos.
Alexitimia: quando até os sentimentos chegam sem legenda
Existe uma palavra complicada para uma experiência muito comum: alexitimia.
Ela descreve a dificuldade de reconhecer e nomear os próprios estados internos.
Não é falta de emoção.
Não é frieza.
É mais como tentar ler um livro sem índice.
Às vezes a pessoa sente algo antes de saber o nome daquilo.
E talvez isso não aconteça só com sentimentos.
Talvez aconteça também com vontades.
Às vezes a frustração chega primeiro.
Só depois a gente percebe:
“Nossa… então era isso que eu queria.”
Querer sozinho é fácil. Querer junto é outra história.
Ao longo da conversa surgiu uma diferença importante.
Querer um mergulho.
Querer ver uma arraia-manta.
Querer rever um filme.
Essas coisas são relativamente simples.
Mas querer algo que envolve outra pessoa…
Aí a matemática muda.
Porque o outro também quer.
Ou não quer.
Ou quer duas coisas contraditórias ao mesmo tempo.
Ou simplesmente não sabe.
E talvez seja aí que muita gente neurodivergente entre em curto-circuito.
Porque não basta entender o próprio desejo.
É preciso entender o desejo do outro.
E, pior ainda, lidar com aquilo que nunca é dito claramente.
“Você me ama?”
Poucas perguntas provocam tanto desconforto.
Porque para algumas pessoas a resposta é simples:
“Claro.”
Para outras, a pergunta parece injusta.
Não porque falte amor.
Mas porque o amor não é uma emoção que está ligada o tempo inteiro.
Talvez naquele exato momento a pessoa esteja cansada.
Pensando em outra coisa.
Trabalhando.
Regulada em modo econômico.
E isso não significa ausência de amor.
Mas quando se tem uma relação mais literal com os sentimentos, responder automaticamente pode parecer uma mentira.
É como se a pergunta exigisse um sentimento em tempo real.
E às vezes o amor aparece mais na presença, no companheirismo e na constância do que em declarações épicas.
A angústia do “não sei”
Talvez uma das coisas mais difíceis para algumas pessoas seja a falta de definição.
Porque existe gente que consegue viver no “vamos vendo”.
Mas existe também quem precise de previsibilidade para conseguir respirar.
E aí aparece um conflito muito comum.
Uma pessoa diz:
— Quero morar sozinho.
A outra escuta:
— Então você quer terminar.
A primeira responde:
— Não foi isso que eu disse.
E ninguém está mentindo.
Porque os dois estão falando línguas emocionais diferentes.
Uma pessoa trabalha com possibilidades.
A outra precisa de definições.
Uma suporta o “não sei”.
A outra sofre dentro dele.
Querer e frustrar
Talvez a gente descubra o que queria justamente quando perde.
Quando algo acaba.
Quando não acontece.
Quando uma porta se fecha.
Porque a frustração tem essa capacidade estranha de revelar desejos que estavam escondidos.
A criança percebe que queria aquele brinquedo quando ele é tirado.
O adulto percebe que queria aquela relação quando ela começa a acabar.
Nem sempre sabemos o que queremos.
Mas quase sempre sabemos o que dói perder.
“Por que tudo precisa ser tão complicado?”
Essa é uma frase que muita gente neurodivergente ouviu a vida inteira.
“Por que você pensa tanto?”
“Por que você explica tanto?”
“Por que tudo precisa ser tão complicado?”
Talvez porque, para algumas pessoas, o querer nunca vem sozinho.
Ele vem acompanhado de dúvidas.
Contradições.
Contexto.
Medos.
Possibilidades.
Uma pessoa pode querer alguma coisa e, ao mesmo tempo, perceber os problemas desse desejo.
Pode querer e questionar o próprio querer.
Pode amar e precisar ficar sozinha.
Pode desejar proximidade e precisar de distância.
Pode querer tudo isso ao mesmo tempo.
E talvez não exista nada de errado nisso.
Talvez querer seja mais uma direção do que uma certeza
No fim da conversa, surgiu uma ideia bonita.
Talvez querer não seja uma promessa.
Nem uma ordem.
Nem uma garantia.
Talvez querer seja apenas apontar para alguma coisa.
Como uma criança que ainda não sabe falar, mas estica o dedo em direção ao brinquedo.
Não significa que ela vai querer aquilo para sempre.
Não significa que aquilo vai acontecer.
Só significa:
“É para lá que eu estou olhando agora.”
E talvez isso já seja suficiente.
Porque a vida não é feita de certezas.
Ela é feita de direções.
E, às vezes, tudo o que a gente consegue dizer é:
“Hoje, é para lá que eu quero ir.”